Encontros por Acaso #1 – O morador de rua

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Por completo acaso, eu frequentemente conheço pessoas inusitadas e vivo experiências inusitadas. Em tributo a esses momentos e pessoas, esses são relatos de Encontros por Acaso. Histórias simples, mas especiais. Encontros únicos. Encontros que me tornaram mais completa. Encontros que me tornaram mais humana.

Local: Uma praia na cidade de Balneário Camboriú, Santa Catarina (Brasil).
Quem: Morador de rua, nome desconhecido.

Chega o fim da tarde e minha mente está inquieta. Caminho até a praia para meditar.
Uma garrafa de água para hidratação. Uma camiseta amassada para sentar na areia. No bolso, 4 reais, para possíveis emergências.
Caminho. Chego e me sento. Medito.
A noite me recebe quando abro os olhos. Prazer visual e sonoro. Sorrio para as ondas.
Mexo na areia. Preencho minha mão e modelo uma esfera. Tenho 1 esfera.
De novo. Tenho 2 esferas.
Um morador de rua vem me pedir ajuda. Eu digo que só trouxe minha água e camiseta para sentar. Não cito meus 4 reais para emergência. São para emergência. Ele segue seu caminho.
De novo. Tenho 3 esferas.
Faço um quadrado de areia (ou quase).
Faço um triângulo de areia (ou quase).
Faço uma rosquinha de areia (ou quase).
Começo a fazer uma cabeça de dragão na areia.
Na verdade, parece mais um cavalo do que um dragão. Então agora é um cavalo.
Faço um chifre no meio da testa. Esqueci que não era mais um dragão. Sem problemas. Agora é um unicórnio.
Cabeça pronta. É hora do corpo. Começo a juntar areia. Preciso de muita areia. É o corpo de um unicórnio.
O morador de rua volta e observa com entusiasmo minha obra. Oferece comida que ele conseguiu. Um pão e um suco. Eu recuso com peso na consciência.
Ele oferece ajuda na minha escultura.
Agora é aproximadamente 20h15 de uma quarta-feira, e estou fazendo um unicórnio de areia com um morador de rua.
Modelamos.
Pra que preciso de 4 reais de emergência? Eu estou hospedada há poucos minutos dali.
Ponho a mão no bolso e ofereço meu dinheiro ao mendigo.
Ele aceita, levanta, desaparece por alguns minutos.
Eu modelo.
Ele volta com mais comida para me oferecer.
Modelamos.
Ele quase não fala. Quando fala, são coisas que não entendo direito. Talvez ele não esteja em sua melhor sanidade mental. Talvez ele só tenha a língua presa. Talvez ele tenha alguma deficiência.
Não consigo descobrir. Não importa. Nos comunicamos pela areia.
Modelamos.
Ele começa a fazer uma cauda para o unicórnio. Uma cauda de peixe.
Me incomodo. Não era assim que queria minha obra.
Reflito.
Me incomodo.
Reflito.
Sorrio.
Por que não?
Agora é um unicórnio-sereia.
Modelamos.
Ele começa a puxar outras partes do unicórnio. Não sei mais dizer o que é a obra.
Talvez ela não precise ser algo. Talvez essa seja justamente sua beleza.
É apenas o resultado do nosso momento. Um bom momento. A representação física de nossa comunicação.
Ele parece feliz. Me sinto feliz.
Modelamos.
Ele parece não estar com uma boa sanidade mental.
Temo o jeito que me olha e se aproxima. Talvez ele tenha boas intenções. Talvez eu esteja julgando negativamente e me preocupando à toa.
Mas é tarde.
Estou sozinha.
Por mais belo que tenha sido nosso momento, temo por minha segurança.
Ele realmente não está com uma boa sanidade mental. Me entristeço.
Me entristeço pensando pelo o que ele deve ter passado. Me entristeço por ele ter perdido parte de sua mente. Me entristeço por escolher dizer adeus.
Me despeço.
Ele me segue por cerca de 5 metros. Me preocupo. Ele permanece na praia. Eu sigo.
Chego ao meu hostel em paz. Dividida entre alívio, felicidade e tristeza.
Mas em paz.

Volto ao mesmo local 3 dias depois de nosso encontro. Em uma manhã nublada. Ele não está lá. Mas nossa história sobrevive:

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